A ESTREIA DO ESPETÁCULO!

Em 2006, logo depois de concluir o mestrado em Engenharia de Produção, na COPPE – UFRJ, e começando o doutorado que nunca terminei (mas isso é uma outra história), escrevi um livro com o título O Teatro Organizacional - Construindo e Implantando Processos de Negócio, editado pela e-Papers, Rio de Janeiro.
Nesse livro o meu saudoso amigo e orientador Rogerio Valle, Ph.D., já falecido, escreveu a apresentação que está no final do artigo.
No livro O Teatro Organizacional eu tracei um paralelo entre o teatro essencial e o teatro organizacional. O teatro essencial é aquele onde diretores como Grotowski; Stanislavski; Brecht; Artaud; Brook; Meyerhold; Piscator; e os brasileiros Antunes Filho, Gerald Thomas, Zé Celso Martinez, Bia Lessa, entre outros, nos apresentam seus espetáculos, suas obras. Já o teatro organizacional é aquele onde muitos, milhares, milhões produzem os produtos, bens ou serviços, que adquirimos.
Desse livro eu extrai, para este artigo um resumo da capitulo 7 - A Estreia do Espetáculo.
Em janeiro de 1966, Grotowski encerrou um seminário de 10 dias em Skara, na Suécia, com as seguintes palavras:
“Não se pode ensinar métodos pré-fabricados. Não se deve tentar descobrir como representar um papel particular, como emitir a voz, como falar ou andar. Isto tudo são clichês, e não devemos perder tempo com eles. Não procurem métodos pré-fabricados para cada ocasião, porque isto só conduzirá a estereótipos. Aprendam por vocês mesmos suas limitações pessoais, seus obstáculos, e a maneira de superá-los, além do mais, o que quer que façam, façam de todo o coração”.
Como estamos tratando processos de negócio como peças organizacionais, que é exatamente isto que eles são, é preciso tratar a implantação e a execução de cada processo como se fossemos encenar uma peça no teatro essencial, mas, no caso, é uma peça do teatro organizacional. É claro, não chegaremos a praticar nenhum exercício dos propostos por Grotowski (se bem que, a meu ver, não haveria mal algum em fazê-los). Entretanto, há uma série de outros exercícios, próprios para o teatro organizacional, que precisam ser conhecidos, discutidos e realizados para cada processo novo ou recriado a ser implantado.
Ao tratar os processos de negócio como peças teatrais organizacionais, defendo que sua implantação deva ser cuidadosa e adaptada a cada processo e a cada contexto. Muitos projetos fracassam por negligenciarem a fase de implantação do processo recriado, especialmente em relação ao preparo dos profissionais envolvidos na sua operacionalização.
É comum darmos mais atenção a processos automatizados (background processes) do que àqueles com intensa interação humana (foreground processes), o que para mim é um erro grosseiro.
Existem quatro formas básicas de implantar processos de negócio, podendo ser usadas isoladamente, combinadas ou aplicadas de forma distinta a diferentes processos:
Descontinuidade total – O processo antigo é encerrado completamente no momento da implantação do novo.
Descontinuidade parcial – O novo processo substitui o antigo por partes, geralmente com subdivisão em subprocessos.
Sobreposição – O novo processo opera junto ao antigo por um tempo, comum em pequenas melhorias.
Execução em paralelo – Ambos os processos funcionam simultaneamente, exigindo esforço duplicado dos envolvidos, comum em TI para fins de certificação de operacionalidade.
A escolha do tipo adequado depende da análise do processo e do contexto de execução.
Tipos de Operacionalização de Processos
Automatizada – Executada por tecnologias que controlam eventos e microeventos, tais como PLCs - Controladores Lógicos Programáveis, Sistemas de Workflow, BPMS, RPAs - Robotic Process Automation, etc., etc.
Semiautomatizada/Semimanual – Interação entre pessoas e tecnologia na execução de partes do processo.
Manual – Realizada inteiramente por pessoas, sem suporte de tecnologias inteligentes.
Implantação de Processos
Todo processo é implantado por meio de outro processo – o Processo de Implantação – que deve ser cuidadosamente planejado para evitar prejuízos e estresse organizacional.
Etapas da Implantação
Recebimento da Documentação – Entrega dos documentos do processo ao grupo responsável por operacionalizá-lo.
Distribuição dos Papéis – Leitura e compreensão do processo pelos envolvidos na implantação.
Ensaio Geral – Simulação prática com todos os atores do processo que será implantado.
Roteiro para Implantação
Antes da “Estreia”:
Entregar e revisar a documentação com todos os envolvidos.
Realizar reuniões por níveis hierárquicos e depois em conjunto com todos os níveis.
Garantir que os equipamentos estejam prontos e os times informados sobre desenvolvimento da reunião.
Durante a “Estreia”:
Acompanhamento constante dos atores durante a implantação e uso do processo.
Realização de reuniões curtas nas primeiras semanas para ajustes.
Depois da “Estreia”:
Início do gerenciamento do processo com foco em melhoria contínua, usando métodos como TQM, Kaizen, Seis Sigma, etc., etc.
A Importância da Vigilância Constante
Manter o processo sob observação evita recaídas em práticas antigas, principalmente diante da resistência às mudanças, ocasionadas pela “síndrome de DOC”, Desorganização Obsessiva Compulsiva.
Conclusão
A implantação de qualquer processo é um grande desafio, envolve cultura, resistência passiva e ativa, resiliência, sabotagem, etc. Envolve respeito ao trabalho de melhoria realizado, escuta ativa e valorização dos envolvidos. O sucesso do projeto e, obviamente, do processo implantado depende da capacidade de aprender dos envolvidos mutuamente e da boa-vontade em adaptar-se às melhorias que foram e que vão necessitar ser feitas ao longo da vida útil do processo.
Apresentação
O Teatro Organizacional: Construindo e implantando processos de negócios não é apenas um livro a mais, na selva dos livros de gestão que hoje dominam as livrarias. Primeiro, porque o autor é, simultaneamente, um profissional experiente, um consultor bem-sucedido e um palestrante notável. Segundo, porque o livro foge do convencional. É fácil de se ler, mas sem cair na superficialidade tão comum em obras congêneres. Superficialidade que facilita a leitura, mas emudece o profissional na hora de agir. Tadeu prova que se pode escrever algo bem fundamentado, usando uma linguagem coloquial. Mas que o leitor não tenha dúvidas: seu original conceito de eventograma foi discutido detalhadamente por uma exigente banca de professores do Rio e de São Paulo, quando da ressente dissertação de mestrado do autor. Foi considerado como inovador e poderoso, quando utilizado dentro da metodologia descrita pelo autor, a Metodologia DOMP. Este livro apresenta vários exemplos, retirados da vida gerencial cotidiana, que deixam isto bastante claro. Pois os processos estão em todos os empreendimentos humanos, fora ou dentro da empresa. Eles descrevem a cooperação das pessoas, dentro da divisão de trabalho que, desde tempos imemoriais, faz a Humanidade obter grandes avanços, em vários setores. Quando bem-organizados, estes processos podem obter melhores resultados, com menos recursos e menos cansaço. Bom para todos que, a cada dia, dão muito de suas vidas pela produção de bens e serviços para a sociedade. Aliás, a analogia entre este cotidiano das empresas e as representações teatrais, ponto de partida deste livro, é um insight de mestre. Gerentes e atores, ambos interessados, a seu modo, em performance, acabam se encontrando na necessidade de ter um roteiro e, contraditoriamente, também na necessidade de dele escapar, quando sentem que precisam. Aprender isto é uma longa caminhada, que este livro pode encurtar um pouco.
Rogerio Valle
Laboratório de Sistemas Avançados
de Gestão da Produção
COPPE/UFRJ




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