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O CUSTO DO PIONEIRISMO

Foto do escritor: Prof. Tadeu Cruz
Prof. Tadeu Cruz
25 de fev. de 2025
4 min de leitura

Tadeu Cruz


Pioneirismo custa caro, sempre, principalmente se não estivermos preparados para usufrui-lo. As vezes obtém-se algum retorno, algum lucro, por sermos pioneiros, mas... para que o pioneirismo dê certo existem vários fatores que devem ser levados em consideração, de preferência antes de gastarmos dinheiro com o objeto do pioneirismo.

 

Aprendi esse axioma de forma dolorosa. Doeu muito, no bolso.

 

Na década de 1990 fui pioneiro ao introduzir no Brasil algumas tecnologias da informação avançadas. Eram softwares novíssimos, tanto pela concepção, como pelas promessas que faziam. Entretanto as empresas, mormente as brasileiras, também as americanas, não estavam maduras, prontas, para implantar e utilizar tais softwares e creio que ainda hoje não estejam.

 

Vou contar três exemplos:

 

O primeiro exemplo é de um software extraordinário que, penso, até hoje ainda não é utilizado em larga escala.

 

O software chama-se Authonomy, originalmente da empresa Authonomy, fundada em Cambridge, Inglaterra, por Mike Lynch (morreu afogado em 19 de agosto de 2024, quando o iate dele, de nome Bayesian, afundou em Porticello, Sicília) e Richard Gaunt em 1996 como um desmembramento da Cambridge Neurodynamics, uma empresa especializada em reconhecimento de impressões digitais baseado em computador. Eles combinaram tecnologias nascidas da pesquisa na Universidade de Cambridge e desenvolveram uma variedade de aplicativos de pesquisa corporativa e gerência do conhecimento usando técnicas adaptativas de reconhecimento de padrões centradas na inferência bayesiana em conjunto com métodos tradicionais.

 

Era um software caríssimo. À época, década de 1990, só a Petrobrás tinha uma licença de uso, que eu lembre. Em 2012 a Authonomy foi comprada pela HP. Não sei quantas empresas usam o Authonomy no mundo hoje, mas sei que todo software que a HP põe as mãos não vai pra frente, talvez por ser uma empresa de hardware. Foi assim com o HP Draw, HPSQL, HP Maintenance, entre tantos outros com os quais interagi.

 

Uso pratico: no Authonomy entre outras funcionalidades era possível programar agentes dinâmicos (agentes móveis) para saírem varrendo na rede mundial de computadores à procura do que tinham sido instruídos para achar. Ao encontrarem, eles capturavam o objeto, contextualizavam e gravavam nos diretórios específicos. Nem precisa perguntar se eles aprendiam consigo mesmos, sim, aprendiam.

 

À época cheguei a manter uma breve correspondência, que me enriqueceu muito, sobre o tema, com uma professora doutora especialista em agentes móveis do MIT.

 

Resultado: não consegui vender nem uma licença sequer. Prejuízo!

 

Eu não conheço os algoritmos com os quais as IAs foram desenvolvidas, nem quero.

 

Talvez porque não seja exatamente uma novidade para mim. Afinal "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" como disse Antoine Laurent Lavoisier por volta de 1775, e que Abelardo Barbosa, o Chacrinha, parafraseou jocosamente com a frase “nada se perde tudo se copia”.

 

Outro desastre. Trouxe para o Brasil um software inglês para Gerenciamento de Conteúdo Empresarial, o ECM, muito bom. Ele vinha com mais de 100 tipos de objetos gerenciáveis, e era possível criar outros, documentos, sons, vídeos, mapas, fotografias, desenhos, além dos óbvios PDF e Word já estavam no software. Era na verdade uma Suite composta de diversos módulos. Mas, de novo, as empresas não estavam preparadas para utilizar um software com tal potencial. O principal apelo da Suite era estruturar conteúdo e mantê-lo acessável de forma fácil a todos na Organização.

 

Resultado: não consegui vender nem uma licença sequer. Prejuízo!

 

E finalmente o nosso querido Workflow, que eu também trouxe para o Brasil. Primeiro eu trouxe o XNear, excelente software chileno de Workflow, mas era muito caro. Depois trouxe o Ultimus, excelente software americano de Workflow. Com o Ultimus, pelo menos, não tive um prejuízo total, pois implantamos 12 projetos no Brasil, em empresas públicas e privadas. Algum tempo depois a Ultimus foi vendida para um fundo de investimentos americano.

 

Com os softwares de workflow minhas experiências foram tão ricas e intensas que a minha dissertação de mestrado na UFRJ foi sobre “Uso e desuso de sistemas de Workflow.”

 

Esses casos acima, evidenciam o que chamo de Custo do Pioneirismo.

 

Depois de todos esses casos de (in)sucessos eu desisti de trazer e comercializar softwares de ponta, avançados, porque as empresas não estavam e suspeito que ainda não estão preparadas para tanta “maravilha”. Com isso desenvolvi um método, aplicado com a Metodologia DOMP, para aferir se uma Organização está apta, madura, para comprar e implantar qualquer software.

 

Hoje eu levo tão a sério essa minha preocupação que já cheguei a sugerir que uma empresa não comprasse um determinado software, porque ela não tinha maturidade, não estava preparado para usá-lo. Antes isso do que criar condições para uma grande dor de cabeça depois. Não adianta querer vender qualquer software se a Organização não estiver preparada para implanta-lo e utilizá-lo.

 

Há, como já disse, um conjunto de fatores que precisam ser levantados e analisados para que se tenha certeza se qualquer que seja a empresa que deseje comprar qualquer software está preparada.

 

Isso me leva à seguinte preocupação:

 

Com febre atual de IAs quantas empresas estão, efetivamente, preparadas para utilizá-las e quantas estão, apenas, surfando inconsequentemente, na onda IA?

 

Eu tenho quatro IAs instaladas nos meus dispositivos eletrônicos. Todas elas, até agora, me dão respostas muito semelhantes, para não dizer iguais, para as mesmas perguntas, para os mesmos problemas e questionamentos.

 

Então, o que fará a diferença?

 

A maturidade da necessidade!

 

E agora?

 
 
 

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